• Sem categoria

    “Mais leve que o ar”

      A Literatura possui poderes mágicos. Acabo de ler  “Mais leve que o ar”, da escritora ucraniana  Hristina Kozlovska, em caprichada tradução em Esperanto, publicada pela Editora Mondial, em Nova Iorque. Um encanto. Literatura em estado de pureza. Uma coletânea de contos conduzidos magistralmente pela via do absurdo. Num deles, um jovem descobre que cientistas já comprovaram o que acontece com a individualidade após a morte, mas diante do despreparo da humanidade, a revelação fica vedada ao público – exceto para os octogenários e doentes terminais. Então, sua avó decide vir em sua ajuda... Noutra narrativa, um homem, no campo, descobre que existe outro homem que vive penosamente  sob a…

  • Sem categoria

    As unhas do Presidente

      PSV out 2024 O Presidente sofreu um acidente doméstico, mais precisamente um acidente palaciano. Uma queda no banheiro do palácio, que deixou todos os cidadãos preocupados. Afortunadamente, nada grave aconteceu, mas ele precisou de atendimento médico e um período de observação que o impediu de comparecer a importante reunião internacional. Portanto, nada grave. A culpa foi das unhas presidenciais: o Chefe de Estado caiu quando estava a cumprir o difícil procedimento de cortá-las. Como se sabe, é tarefa tão prosaica quanto complicada e, acima de tudo, imprescindível: unhas longas, especialmente se afiadas, são perigosas, cortantes, desagradáveis e antiestéticas. Nosso homem não tinha pois alternativa, senão apará-las. Todos estamos sujeitos a…

  • Sem categoria

    da última prateleira da estante

     PSV out 2024   Da última prateleira da estante, o livro me olhou com alguma nostalgia. Acudi ao chamado e me pus a folhear, distraído, velhos versos vestidos de vago passado, escapados da memória. Num recanto de poesia, dormitava uma folha de plátano, amarelada pelo tempo. Num último suspiro, ela murmurou, quase inaudível: - Não se lembra? Era primavera!...     De sur la lasta breto en la ŝranko, la libro rigardis min iom nostalgie. Mi akceptis la alvokon, kaj komencis foliumi, senatente, antikvajn versojn vestitajn per svaga pasinteco, eskapintajn el la memoro. En angulo de poezio, dormetis folio de platano, flaviĝinta pro la tempo. Per lasta spiro, ĝi murmuris, preskaŭ…

  • Sem categoria

    da última prateleira da estante

     PSV out 2024   Da última prateleira da estante, o livro me olhou com alguma nostalgia. Acudi ao chamado e me pus a folhear, distraído, velhos versos vestidos de vago passado, escapados da memória. Num recanto de poesia, dormitava uma folha de plátano, amarelada pelo tempo. Num último suspiro, ela murmurou, quase inaudível: - Não se lembra? Era primavera!...     De sur la lasta breto en la ŝranko, la libro rigardis min iom nostalgie. Mi akceptis la alvokon, kaj komencis foliumi, senatente, antikvajn versojn vestitajn per svaga pasinteco, eskapintajn el la memoro. En angulo de poezio, dormetis folio de platano, flaviĝinta pro la tempo. Per lasta spiro, ĝi murmuris, preskaŭ…

  • Sem categoria

    um fim de semana longevo

      Um fim de semana longevo. Fui ver o 50º filme de Woody Allen (88 anos) e a peça de Othon Bastos (92 anos) no palco. Eloquentes expressões de pura arte, a sorrir do etarismo bobo que anda por aí. “Um golpe de sorte em Paris”, falado em francês, mesmo não sendo o melhor filme do americano, dá gosto assistir. Hora e meia de narrativa limpa, fluida, sofisticada em sua simplicidade aparente. A trilha sonora, sempre jazzística, é um encanto de leveza, a contrastar com as cenas de um marido tresloucado que afaga a própria sandice brincando com um trenzinho elétrico. Enquanto o Acaso, esse personagem obsessivo na obra de…

  • Sem categoria

    um fim de semana longevo

      Um fim de semana longevo. Fui ver o 50º filme de Woody Allen (88 anos) e a peça de Othon Bastos (92 anos) no palco. Eloquentes expressões de pura arte, a sorrir do etarismo bobo que anda por aí. “Um golpe de sorte em Paris”, falado em francês, mesmo não sendo o melhor filme do americano, dá gosto assistir. Hora e meia de narrativa limpa, fluida, sofisticada em sua simplicidade aparente. A trilha sonora, sempre jazzística, é um encanto de leveza, a contrastar com as cenas de um marido tresloucado que afaga a própria sandice brincando com um trenzinho elétrico. Enquanto o Acaso, esse personagem obsessivo na obra de…

  • Sem categoria

    sobre a (in)felicidade

     PSV 0ut 2024    Leio na primeira página do jornal que um empresário chinês decidiu conceder aos seus empregados uma certa “licença infelicidade”. O direito a faltar ao trabalho, algumas vezes por ano, por estar passando por um momento de infelicidade. Fico a imaginar como lhe sobreveio a ideia. Talvez de um diálogo singelo com seu trabalhador: - Por que faltaste ontem ao trabalho, meu jovem? - Eu estava muito triste, meu patrão. - Ah, lamento. Pode-se saber por que? - Pode-se, mas não importa. Todo mundo fica triste de vez em quando. Silêncio. O patrão: - Pois é justo. Trabalhar em estado de infelicidade infelicita o trabalhador e o fruto…

  • Sem categoria

    o menino e o ipê

      PSV set 2024 Não longe daqui  há um menino que gosta de ipês.  De sua alta janela, pincela cores,  inventa perfumes,  espalha pelos campos os alegres buquês coloridos.  Os pássaros adejam versos à roda dele,  as nuvens o acariciam com fresca umidade,  o vento canta para ele em calmo silêncio.  O menino paira.  O mundo está salvo.     Ne for de ĉi tie  estas knabo, kiu amas ipeojn*.  De sia alta fenestro li strekas kolorojn,  inventas parfumojn,  dismetas tra la kampojn gajajn kolorajn bukedojn.  Birdoj flugigas versojn ĉirkaŭ li,  nuboj lin karesas per  freŝa  humido,  vento kantas al li en trankvila silento.  La knabo ŝvebas.  La mondo estas savita.  …

  • Sem categoria

    metamorfose

     PSV set 2024    Um bom amigo, a certa altura, decidiu mostrar-lhe um erro. Ele o cometera havia muitos anos mas, como se sabe, o tempo não apaga os erros, ao contrário da memória, que luta por sepultá-los. Ele de fato cometera aquele erro, por mais mais incômodo que fosse reconhecê-lo. A primeira reação é sempre a justificativa.  — Mas eu tive motivos... fiz aquilo porque... Além de não abrandar a alma, as justificativas vão causando um constante remoer do passado, uma ruminação obsessiva, cujo único resultado costuma ser uma curiosa, dolorosa metamorfose. Não que o erro se transforme em inseto, mas em algo pior: em culpa. Seu erro, tantos anos…

  • Sem categoria

    madrugadas

     PSV - 09/2024  Nas madrugadas de inverno, bem-vindo  o toque da coberta macia que acaricia e conduz ao sono calmo e ao sonho misterioso.   Nas madrugadas de solidão, bem-vindo o som da palavra suave que sossega e revela pensamento claro e sentimento criativo.    frumatenoj   En vintraj frumatenoj, bonvenon al la tuŝo de mola litkovraĵo, kiu karesas kaj kondukas al trankvila dormado kaj al mistera sonĝo.   En solecaj frumatenoj, bonvenon al la sono de milda parolo, kiu kvietigas kaj montras klaran penson kaj kreopovan senton.